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Por que as baleias-jubarte saltam? O espetáculo dos oceanos que continua intrigando a ciência

  • há 6 horas
  • 5 min de leitura

Por: Lorena Oliveira Lima/ Projeto Amigos da Jubarte


Baleia-jubarte saltando. Foto: Bruna Rezende
Baleia-jubarte saltando. Foto: Bruna Rezende

Mesmo pesando até 40 toneladas, as baleias-jubarte conseguem impulsionar quase todo o corpo para fora da água em um dos comportamentos mais impressionantes da natureza. Décadas de pesquisas já revelaram parte desse mistério, mas muitas perguntas ainda permanecem sem resposta.


Poucos espetáculos da natureza despertam tanta admiração quanto o salto de uma baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae). Em poucos segundos, um animal do tamanho de um ônibus escolar rompe a superfície do oceano, lançando quase todo o corpo para fora da água, e retorna com um estrondo capaz de ser ouvido a grandes distâncias.


Conhecido cientificamente como breaching, esse comportamento é observado em diversas populações de jubartes ao redor do mundo e continua sendo um dos temas mais estudados da biologia marinha. Apesar das décadas de pesquisas, os cientistas ainda não encontraram uma única explicação para o motivo desses saltos. Hoje, a hipótese mais aceita é que eles desempenham diferentes funções, variando conforme o contexto social, ambiental e reprodutivo.


Um desafio à física


À primeira vista, o salto parece apenas um movimento espetacular. Entretanto, para a ciência, ele representa um enorme desafio biomecânico.


As baleias-jubarte adultas podem atingir até 16 metros de comprimento e pesar entre 25 e 40 toneladas. Mesmo com esse porte, conseguem acelerar rapidamente e projetar quase todo o corpo acima da superfície do mar.


Antes do salto, o animal mergulha alguns metros abaixo da água e posiciona o corpo para gerar impulso. Em seguida, realiza sucessivos movimentos vigorosos com a nadadeira caudal, acelerando até aproximadamente 8 a 9 metros por segundo. Essa velocidade permite vencer a resistência da água — que é cerca de 800 vezes mais densa que o ar — e impulsionar o corpo para fora do oceano.


Após emergir, muitas jubartes realizam uma leve rotação antes de atingir novamente a superfície. O impacto produz uma grande coluna de espuma, ondas de pressão e sons de baixa frequência que podem percorrer longas distâncias.


Segundo pesquisadores, o alto custo energético do salto indica que esse comportamento deve proporcionar benefícios importantes para a sobrevivência da espécie.


Uma linguagem além dos cantos


Uma das hipóteses mais aceitas é que os saltos funcionem como uma forma de comunicação.


As jubartes são conhecidas pelos complexos cantos emitidos principalmente pelos machos durante a época reprodutiva. No entanto, os pesquisadores acreditam que a comunicação não depende apenas das vocalizações.


Quando uma baleia retorna à água após um salto, o impacto produz vibrações e ondas sonoras que se propagam pelo oceano. Esses sinais podem complementar a comunicação entre indivíduos separados por grandes distâncias ou em ambientes onde o ruído dificulta a transmissão dos sons.


Embora essa hipótese seja considerada uma das mais fortes, ainda são necessárias novas pesquisas para compreender exatamente quais informações podem ser transmitidas por meio desses impactos.


Um sinal de força e condição física


Outra explicação está relacionada à seleção sexual.


Saltar exige enorme esforço muscular e elevado consumo de energia. Por isso, alguns cientistas sugerem que o comportamento pode funcionar como uma demonstração de vigor físico.


Durante a temporada reprodutiva, um indivíduo capaz de realizar diversos saltos consecutivos pode sinalizar aos demais que possui boas condições de saúde e elevada capacidade física, características importantes para a reprodução.


Esse tipo de comportamento é observado em diferentes grupos de animais, nos quais demonstrações de força aumentam as chances de sucesso reprodutivo.


O aprendizado começa cedo


Os filhotes de baleia-jubarte também chamam a atenção pela frequência com que saltam.


Ao contrário dos adultos, eles costumam realizar esse comportamento repetidas vezes durante o desenvolvimento. Especialistas acreditam que esses movimentos funcionem como um treinamento natural, fortalecendo a musculatura, aprimorando a coordenação motora e preparando os jovens para as longas migrações que enfrentarão ao lado das mães.


Além do aprendizado motor, os saltos podem favorecer a interação entre mãe e filhote, reforçando o vínculo durante os primeiros meses de vida.


Existem diferentes tipos de salto


Embora muitas pessoas imaginem que todos os saltos sejam iguais, pesquisadores já identificaram diferentes padrões.


Algumas jubartes emergem quase totalmente na posição vertical, enquanto outras realizam movimentos laterais ou giram parcialmente o corpo antes de retornar à água. Também existem indivíduos que executam vários saltos consecutivos.


Ainda não se sabe se cada tipo possui uma função específica, mas essas diferenças sugerem que o comportamento é mais complexo do que aparenta.


Os saltos ajudam a remover parasitas?


Durante muitos anos, acreditou-se que o impacto contra a água tinha como principal função desprender cracas, piolhos-de-baleia e pele morta.


Hoje, essa hipótese continua sendo considerada possível, mas provavelmente representa apenas uma das várias funções desempenhadas pelo comportamento. As jubartes utilizam outras estratégias para a limpeza do corpo, indicando que a remoção de parasitas dificilmente explica todos os saltos observados.


Como a ciência investiga esse comportamento


O avanço da tecnologia transformou a forma como os pesquisadores estudam as baleias.


Atualmente, são utilizados drones para registrar imagens aéreas, hidrofones para captar sons submarinos e sensores temporários fixados ao corpo das baleias, capazes de registrar profundidade, velocidade, aceleração e orientação durante os movimentos.


Esses equipamentos permitem reconstruir cada etapa do salto com grande precisão, revelando detalhes impossíveis de observar apenas da superfície.


Além disso, programas de inteligência artificial vêm sendo utilizados para analisar milhares de vídeos, identificando padrões comportamentais que antes passavam despercebidos.


Um mistério que permanece


Mesmo com todos os avanços científicos, uma pergunta continua sem resposta: por que exatamente as baleias-jubarte saltam?


A resposta mais aceita atualmente é que não existe um único motivo. Um mesmo salto pode representar comunicação, demonstração de força, interação social, aprendizado ou até uma combinação de diferentes funções, dependendo da situação.


Essa diversidade de possibilidades faz dos saltos um dos comportamentos mais fascinantes da biologia marinha e um importante campo de pesquisa para compreender melhor a vida desses gigantes dos oceanos.


Conhecimento para conservar


Estudar os saltos das baleias-jubarte vai muito além da curiosidade científica. Entender quando, onde e por que esses animais realizam esse comportamento ajuda pesquisadores a monitorar populações, avaliar os impactos do ruído submarino, do tráfego de embarcações e das mudanças climáticas.


Cada novo estudo contribui para estratégias de conservação mais eficazes e reforça a importância da proteção dos oceanos. Preservar as jubartes significa também preservar os ecossistemas marinhos dos quais elas fazem parte, garantindo que futuras gerações possam continuar observando um dos espetáculos mais extraordinários da natureza.



Referencias

Kavanagh, A. S. et al. (2017). Evidence for the functions of surface-active behaviors in humpback whales. Marine Mammal Science.


Segre, P. S. et al. (2020). Energetic and physical limitations on the breaching performance of large whales. eLife.


NOAA. Whale Behaviors.


National Geographic. Humpback Whale: Facts and Photos.


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